Teoria a mais - Tempo a menos

Segunda parte de TLLDOB - 5

    Terminado o primeiro disco, segue-se o segundo.


    A primeira parte mostrou o aparecimento e desenvolvimento do herói até chegar a uma encruzilhada de opções, e ao tomar uma decisão, vai enfrentar as consequências, tendo que recorrer aos recursos de personalidade para ultrapassar as dificuldades inerentes à sua escolha. 


    Haverá ainda mais cenários e situações de fantasia e metafóricas. Há muita "literatura" e discussões interessantes e disponíveis sobre os significados de cada faixa, mas não será o que quero debater. Vou tentar cingir-me à justificação do meu ponto quanto às ligações entre a música e as cartas dos arcanos maiores que deram o mote.


Lilywhite Lilith (a Força)


    A Força, carta personificada numa mulher, vai dar coragem e guiar o herói, que está sozinho, temeroso e indeciso quanto aos passos a dar para atravessar a escuridão/noite. Na canção é Lilith, lírio branco, mulher cega, mas confiante e intuitiva (será Lill como Jill... Gabriel?) que o afasta da multidão e é indiferente ao ruído e às tentações visuais, e que o entroniza, mas que o deixa a enfrentar os seus medos. Assim como a Sacerdotiza e ou a Imperatriz eram maternais, esta Força feminina pode ser a companheira, mas também independente e rebelde e, no fundo, sente mas não o vê. Dois globos (dois hemisférios, velho e novo mundos?) ameaçam a força do herói.


Waiting Room (o Dependurado)


    O homem pendurado ou enforcado está numa situação deseperada, inesperada e hesitante. Está em espera na "sala de espera". Pelo melhor ou o pior, que saiu de uma improvisação colectiva instrumental, com contributos sobrenaturais, segundo conta o grupo. A cooperação compositiva entre os membros pôs as tensões e incertezas em suspenso.


Anyway (a Morte)


    Tal como a primeira canção deste lado, esta era uma canção antiga dos Genesis que foi reaproveitada para receber uma letra nova. E essa letra é outro pilar afirmativo desta "teoria": Rael espera por uma visita que chegará de cavalo branco. De alguma maneira, a inevitável figura da Morte aparecerá, e este significado pode ler-se em muitos lados. O que venho acrescentar é que a canção condiz exactamente com a carta da Morte. O fim, o número 13, pode ser só metafórico, psicológico "...everything you are is dying underground", calmamente antecedendo um renascimento, uma outra vida.


 


Here comes the supernatural anaesthetist  (a Temperança)


    Uma canção de texto curto, no entanto, o suficiente para dar relevo a uma mensagem descontraída, temperada...esfumada. O anestesista sobrenatural vem num balanço para aliviar os anseios, equilibrar desespero com esperança. E dar também destaque ao virtuosismo de Hackett que brilha neste lado do disco.


 


Lamia (o Diabo)


    Este canção poderosa do álbum teria muito de que se falar, mas reduzindo à inspiração tarótica, é simples fazer a associação do monstro da mitologia grega Lâmia com o Diabo. O ser de três cabeças femininas também faz lembrar as imagens da carta em questão que costuma trazer um demónio grande acompanhado de dois mais pequenos. A história de um encontro sensual e desfecho sangrento está bem representado na simbologia do Diabo do Tarot: excessos, tentações, luxúria; superação pessoal e egocentrismo, mas também triunfo material que, porém, pode ter um resultado corruptivo e infeccioso, como se verá nas faixas sequentes. A outro nível, essa união com lâmia poderá ser metafórica da relação do narrador com o seu grupo (um corpo de várias cabeças): deu-lhe tudo de si, mas agora alimenta-se dele até se libertar.


 


Silent sorrow in empty boats (a Torre)


    Outro instrumental minimalista de que se poderá retirar o mínimo: a torre que vai abaixo é o desmoronar de uma realidade anterior de que restarão ruínas, dito na canção, e é uma dor silenciosa, o vazio que antecipa muita agitação.


Tarot_de_Marseille.jpg tarot de Marselha 

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