Enquanto não acabam os blogues sapo, dá para escrever umas minudências, já que estas teorias vão sair do ar, o que é uma pena. Um projecto que fica inacabado e que teve pouca visibilidade.
Estas 'teorias' de que vou falar não são minhas, são explicações que ouvi e que são perfeitamente banais e compreensíveis para explicar enfabulações que são corriqueiras no nosso país e que criam 'universos paralelos".
Há duas esquisitices gastronómicas que chegam aos nossos pratos e que têm um sentido quase místico porque não têm ligação com a realidade, exactamente porque têm nomes falsos.
As gambas ou os camarões "à guilho" são uma preciosidade das ementas portuguesas que passaram duma transcrição errada em estabelecimentos menos conhecedores para uma instituição culinária e turística (embora haja quem denomine bem o prato).
Quem é o famoso "Guilho" ou de que brumas da memória saiu? É simples, é uma forma de preparar crustáceos com alho, e o nome vem de Espanha: "gambas al ajillo", isto é, gambas ao alhinho, ou gambas com alho. A minha explicação é que o nome veio sendo alterado por um francesismo para dar requinte: de "al ajillo" espanhol passou para "à la jillo" pseudo-francês. De "à jillo" passou a "à gilho", com menos pontinhos confusos do "ji" e daí autonomizou-se e dignificou-se no mitológico "Guilho", qual deus dos mares especializado em aviar marisco.
O outro prato, que tem quase foro de natureza étnica regional, é a "carne de porco à alentejana", um favorito à mesa do restaurante mas que também sofreu um ataque da preposição "a" contraída com o artigo "a". O erro está em "à" alentejana tal com "à" guilho.
A explicação da origem do prato, li-a num artigo na Revista do Expresso, ainda a preto e branco e em papel de jornal, algum dia nos finais de 1980's. O prato de carne de porco com ameijoas é um prato tradicional do Algarve, mas que passou a ser chamado "carne de porco alentejana" nos restaurantes de Portimão e arredores porque a carne alentejana era mais saborosa do que a carne dos porcos das margens do rio Arade, alimentados com restos de peixe e marisco (era tipo "porco à guilho"). Portanto, "alentejana" era a carne do porco e não a maneira de se fazer, "à la alentejana" (também se tivessem usado o adjectivo "alentejano" para designar o porco, poderia ter-se evitado a confusão, ou não, pois haveria logo quem dissesse que era feito "à alentejano").
Por acaso, sempre me intrigara essa suposta origem alentejana dum prato com mariscos, numa região mais conhecida pela planície e pelo montado. Nunca fiz trabalho de campo para me garantir do que li numa coluna gastronómica de referência, no século passado, mas então, escrevia-se com autoridade na matéria e não havia espaço nem necessidade de se espalhar "fake news" em assuntos triviais. Possivelmente já ninguém sabe dessa origem, e a habituação cristalizou uma nova verdade quase mágica.
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A capacidade que agora há, nas redes sociais e em canais de informação 24 horas, de se espalhar mentiras, invenções e inanidades, é quase ilimitada e muito difícil é de contrariar, por mais argumentos e bom senso que se utilize.
Piadinhas inocentes que se faziam com a explicação das coisas, trocadilhos que se usavam para dar cor à realidade, foram agora substituídos por monstruosidades, paradoxos e parvoíces de todo o tipo que atropelam qualquer sentido crítico.
Lembro-me de se brincar com a sigla que vinha em pacotinhos de açúcar, a marca SEMPA (suponho que era Sociedade Empacotadora de Açúcar) que se dizia querer dizer: "só esta m* para adoçar". Ninguém levava a mal ou a sério.
Hoje em dia pode brincar-se com disparates como dizer que TEA, chá em inglês, ou BICA, café de máquina, são siglas desdobráveis em frases idiotas (nem as vou divulgar aqui). O problema é que, sem sentido crítico, as pessoas acreditam!
Actualmente, é desconsolador ter de repetir ou ver-me "traduzido" de cada vez que peço uma bica. Mas eu insisto, é bica. Não é bica de café, é café da bica, ou seja, quando apareceram as máquinas espresso (como LaCimbali, por isso se dizia e diz (?) cimbalino na cidade do Porto), as pessoas pediam, em Lisboa e alhures, "bica!" - café saído da bica da máquina, como as fontes têm uma bica por onde corre a água - para distinguir do tradicional café de saco ou de cafeteira.
É descomplicado, mas há quem tenha prazer em complicar, por ignorância, gracinha ou até malícia.