O lado B de " The Lamb lies down on Broadway" só tem cinco faixas, mas sobre as quais se pode fazer a mesma interpretação a partir do Tarô. Não se pode dizer que todas as canções terão tido essa inspiração estrita, ou que a ordem das cartas dos arcanos maiores foi escrupulosamente seguida, mas é esse exercício plausível que vou prosseguir.
Back in N. Y. C. (Os Amantes)
A carta dos Amantes pode referir-se às relações de um modo geral: companheirismo, amizade. E à liberdade e à busca da novidade e crescimento. De volta à cidade de Nova Iorque, o herói recorda o seu "gangue" e suas actividades "juvenis". Há uma referência à saída de Pontiac, uma penitenciária, que pelo aspecto visual e restrições de vida, penso que pode referir-se, duma forma alegórica e jocosa, ao colégio interno Charterhouse onde se formam os Genesis (o grupo, e os membros: Gabriel, Banks, Rutherford, mas também os anteriores Anthony Philips e Chris Stewart). É uma tomada de decisão e compromisso com a escolha profissional e a fama, rejeitando as tentações e as ligações românticas. O progresso musical e a música progressiva são seus. A palavra-chave "Conection!" que se enfrenta com "No time"...
Pontiac
Charterhouse
Hairless heart (o carro)
Esta faixa não tem letra e a interpretação será mais difícil, mas o título já é referido antes -rapar a cabeça e o coração - como uma atitude de desafio e de opção imparável, simbolizada no carro puxado por vários (dois) cavalos. É o triunfo do projecto. Calmo e agitado.
Counting out time (a Justiça)
Segundo se lê, está canção era anterior ao tema do disco, e foi encaixada no alinhamento. A própria carta da Justiça, que corresponderia, na minha interpretação, por vezes vem noutra ordem, trocada pela da Força, pelo que a evidência é mais ténue. De qualquer forma, este tema descontraído sobre uma aventura amorosa que corre mal, no percurso de amadurecimento do herói e do seu ouriço cacheiro, pode ser lida como uma justa punição: as relações humanas, afectivas, sexuais, não se seguem por manuais, nem se compadecem com "corações descabelados". Recebe-se o que se dá.
Carpet crawlers (o Eremita)
Um tema central e reconhecido da obra, é de [muita dedicação] de Gabriel. Há muitas interpretações mais metafóricas ou literais do que são os "rastejadores da carpete", desde espermatozóides tentando alcançar o óvulo; a fiéis religiosos tentando alcançar salvação. Isso tudo pode ser entendido, mas o que me parece é que o herói é um espectador e não entra logo no coro "Nós temos de entrar para sair". A fecundação, a salvação, ou o sucesso de crentes no consumismo, ou fãs musicais, acaba por ser um caminho, arrastando-se ou subindo uma escada em espiral, que acaba em solidão ou consciência de si. O Eremita da carta pode é representar o próprio autor que tomou uma decisão de se desvincular, já não acreditando na alienação colectiva, em busca de satisfação ou fama que a cultura popular musical ou cinematográfica promete. Assim, compreende que para sair teve de entrar: cresceu dentro do grupo, mas é hora de seguir o seu destino, iluminado pela sua lanterna. E também tem que se empenhar no projecto "the lamb", por respeito a si e aos outros, mas também para completar o ciclo e sair por cima, iluminado. Peter Gabriel dá o seu melhor: canta a sua decisão íntima de estar dentro para poder ficar de fora.
Chamber of 32 Doors (a Roda da Fortuna)
Nesta faixa contam-se 32 portas, mas poderiam ser 22 ou 23, como as cartas, se soasse melhor. A letra é um dos marcos para se compreender e aceitar que o Tarô inspirou: refere abertamente duas figuras: "the priest" (Hierofante/Papa/Sacerdote) e "the magicien" (Mago/Bateleur); e as portas são opções, são vias da sorte ainda por abrir. Na Roda da Fortuna, que gira de cima para baixo e vice-versa, nunca se sabe qual a vez de subir ou descer. Entre o "rich man" e o "poor man", o rei e o mendigo, a todos a fortuna dá a volta, independentemente dos méritos de cada um (e haverá também, no início, uma alusão [uma profetização(?)] ao homónimo programa da tv [de 1975!], onde se procura audiência e aplauso). O herói/cantor clama que necessita de alguém para confiar, pois a sorte não é de fiar, para saber qual a porta por onde vai seguir. Ele está só (era o eremita) e quer regressar a casa - largou a ideia do cinema na América mas nada voltará ao mesmo. Todos o chamam, está sob escrutínio, todos opinam, mas ele quer ser ele próprio (com a família que estava a construir).
roda da fortuna com 32 entradas
cartas Visconti-Sforza