Teoria a mais - Tempo a menos

Interpretação da letra de Ripples

    Continuando a apreciação da letra da canção Ripples (Rutherford/Banks), faço uma leitura geral e prévia do título e do contexto. Isto pode não ter nada a ver com o que autor pensou, mas vou expressar a minha opinião: segundo se diz, a ondulação que dá nome à faixa representaria os anos de juventude que passam e não voltam; mas o passar dos anos é uma coisa que ocorre naturalmente e essas ondinhas costumam formar-se por um impacte, algum fenómeno que perturba a placidez da água e desfaz o reflexo, num movimento centrífugo. [Ondas de choque.] É o que me sugere o afastamento irreversível do cantor e do grupo, e vice-versa, quando aquele decide sair. Do muito que se lê sobre as relações e choques dentro do grupo, vem sempre à baila a personalidade dominante e áspera de Tony Banks (um explosivo carneiro), cuja assertividade e criatividade cobre a maior parte da obra genesiana. Mas a personalidade mais discreta e até contida de Mike Rutherford teve, diria, o mesmo peso durante todo percurso da banda. Procurando harmonizar as sensibilidades e contributos de todos, (este diplomático balança) pode ter acusado mais as quebras na formação: assim foi com o seu amigo e primeiro colaborador Ant Philips, e depois com os abandonos de Gabriel e depois de Hackett, que lhe deram amargas desilusões. Menos expressivo que Tony, Mike faz as suas críticas em mensagens crípticas ou nos silêncios (vejam-se os documentários, acessíveis no YouTube, por exemplo). Já agora, apesar de quem se incomoda com referências astrológicas, completo a leitura com a referência aos três cerebrais e independentes aquarianos: dois foram à sua vida, fazerem só o que queriam, o terceiro que ficou, passou de observar atrás dos tambores para se tornar a nova cara do grupo que acabou por seguir as suas pancadas (hits, em inglês, e nas peles).


 


    Vamos lá à letra da canção, com comentários adjacentes:


"Bluegirls come in every size


Some are wise and some otherwise


They have pretty blue eyes"


- As "blue girls" podem significar raparigas de uniforme azul de colégio interno, uma referência velada aos rapazes de Charterhouse, onde andaram os membros de Genesis. Todas (todos) são diferentes, cada uma de seu tamanho (logo aqui uma auto-referência cómica e depreciativa que Mike faz da sua grande altura e certo deslocamento). Mas umas são sábias, e outras valem-se dos seus atributos físicos. Ou seja, os membros que tocam e que ficaram, são sensatos e trabalhadores, enquanto a estrela Gabriel, de (verdadeiros) olhos azuis, só tem de brilhar - este foi um desconforto do grupo, vistos como meros acompanhantes do cantor, o que culminará na separação.


"For an hour a man may change


For an hour her face looks strange


Looks strange, looks strange"


    - Uma das queixas para o afastamento eram as actuações teatrais e o uso e trocas de guarda-roupa extravagante de Peter Gabriel, deixando a música em segundo plano. Durante uma hora (de concerto) o homem muda de roupa e a sua cara fica estranha (de pintura e máscaras), e isto repete-se e repete-se.


"Moving to the promised land


Where the honey flows and take you by the hand


Pulls you down on your knees"


- A terra prometida para onde marchou a "bluegirl" pode ser a América do Norte, quando largou o grupo, e os deixou de "joelhos", à espera do seu regresso para completar o disco "The Lamb..."


"While you're down a pool appears


The face in the water looks up


And she shakes her head as if to say


This is the last time you look like today"


- Estes versos fazer-me lembrar passagens de "Lamia", que surge da "pool", fazendo "ripples", e que já mencionei como possivelmente inspirada nos conflitos dentro do grupo.


[E ao que vem a "pool"? Havia uma "pool"/secção a compor, e outra a escrever]


A marcha referida para a América pode também já ser durante a digressão quando Gabriel anuncia em reunião que vai deixar o grupo. Recusa reconsiderar, (abana a cabeça) significando que o grupo nunca mais vai parecer igual.


"Sail away away


Ripples never come back


Gone to the other side


Sail away away"


- No refrão está um sinal - que poderia ter apontado na leitura prévia - de que o sentido da canção sobre o passar de anos parece difícil de aceitar. "Sail away", navegar, velejar, partir, parecem-me difíceis sinónimos de envelhecimento ou decadência - ou de ter algo a ver com ver-se na imagem reflectida - mas sim de uma viagem para outro lado, duma largada do passado. O que serão as ondulações que não voltam? O passado? O elemento que saiu ou os outros que seguiram viagem e já não estão em baixo, nem vão desistir? Solte-se as velas e saia-se para fora, pois as ondinhas ficam para trás.


"The face that launched a thousand ships


Is sinking fast, that happens, you know?


The water gets below


Seems not very long ago


Lovelier she was than any that I know"


- Digamos que este trecho é menos compreensível: a face que lançou mil navios... a cara que deu voz a tantas canções? Está a afundar-se, a meter água ... errou e caiu de importância, quando há pouco tempo era dos artistas mais relevantes e amados?


"Angels never know it's time


To close the book and gracefully decline


The song as found a tale


My, what a jealous pool is she"


- A letra, na minha interpretação, faz um apanhado do processo que levou à saída do cantor, o que se agudiza durante a feitura de "The Lamb": o Anjo Gabriel, como é comummente etiquetado, não se digna a descer à terra e a entregar as letras que deve para comporem e ensaiarem; a música, as melodias já existem e é a partir delas que se vai contar a história, que Peter tanto quis reservar para si, mas que demora. Oh! que cioso ele é do que vai contar/cantar. Aqui lembro que Mike propôs um conceito para o disco, mas que foi derrotado pelo conceito de Peter. Para os membros que foram arredados de escrever letras, quando já o faziam há cerca de sete anos, isso criou alguma frustração, mas nada diz que as não escrevessem para outros temas, ao mesmo tempo, e que estes estariam logo prontos, a seguir, como este.


"The face on the water looks up


And she shakes her head as if to say


That the bluegirls have all gone away"


- Esta passagem para o refrão, repete dois versos. Então e agora, a cara metida na água olha para cima, e seria o cantor metido no seu mundo pessoal, ou até uma referência ao fim dos concertos, com ele desmaquilhando-se ou desmascarando-se do visual estranho [a velha da capa, afinal, era ele...?], acercando-se da realidade dos outros. Agora não era ele que dizia não, mas que já lamentava que "as outras bluegirls" o tinham deixado.


    Depois repete o refrão, acrescentando:


"Dive to the bottom and go to the top


To see where they have gone


Oh, They've gone to the other side"


- Continua o repto: para perceber o que aconteceu às"bluegirls", é mergulhar e voltar a subir, porque foi o que aconteceu ao grupo, esteve no fundo mas já está no topo a compor, a gravar e a editar. Viraram a página.


    Depois vem um interlúdio instrumental com uma guitarra sublime de Hackett (que faz meia música sem merecer crédito), e eu aproveito para lançar umas pistas:


Não sei se já tinha lido ou era minha imaginação, mas vendo agora umas coisas associadas, não parece que estivesse errado sobre o que poderia ser um outro significado de "ripples". "Ripple", ondinha, seria uma forma de "dimple", covinha da face, aquelas rugas da bochechas de algumas pessoas quando se riem, e podem dar charme, carisma, beleza. É o que tem o sorriso de P. Gabriel, "charmeur". Poderia ser uma forma sarcástica de o nomear? O covinhas já não volta!...


"Dimples" é também o nome dum filme de 1934, e a alcunha da protagonista, por Shirley Temple, uma menina que dança nas ruas de Nova Iorque, com o seu bonezinho azul. Temple é também um símbolo de talento precoce, mas que se vai retirando do "show Biz" quando adulta, ficando aquém do que era. Será uma especulação demasiado longa ver uma conotação com uma crítica verrinosa a Gabriel? Ele teria que fazer mais do que "sapateado" e do que mascarar-se (de bluegirl). E, afinal, teve que fazer mais, sim...


cheek dimples /cheek ripples


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[.   Volta o refrão...


    No fundo, "the face" é o sujeito da canção. "Ripples" é o seu epíteto, mas não é ondinhas como rugas de velhice, ou então dir-se-ia "never go back", elas não vão embora, mas, pelo contrário, elas não voltam mais, "never come back". É um grito de partida, de nostalgia perene.


    E aqui, Collins canta-a para sempre.


    Rutherford, sempre envergonhado, deixa o seu melhor para o fim, com uma variação de baixo, mas já em "fade out". Irá fazer isso continuamente quando for o único guitarrista, só fazendo solos quando a música se esvai - e mesmo a solo, deixará de cantar, por não gostar da sua voz, que é uma voz boa, normal.


    Mas é assim que as coisas são, e assim que foram. Não há lamento que as façam mudar. Foram para o outro lado e resta-nos lembrar o bom que tivemos.]



G.M.R.


    

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