Continuação da postagem anterior: vou evitar editar, por isso, se não escrevi tudo, continuo noutro dia.
A história da feitura do álbum duplo é conhecida, estão disponíveis muitos texto "em linha", por exemplo, na Wikipédia, e não me vou alargar.
Rutherford Banks Collins Gabriel Hackett
Foi gravado e lançado em 1974, antes duma grande digressão que passou por Portugal (1975). A formação chamada clássica teve a última vigência antes da saída do cantor e figura de proa. Eram eles Tony Banks: teclas e guitarra acústica; Mike Rutherford: baixo e guitarra 12-cordas; Steve Hackett: guitarras; Phil Collins: percussões e coros; Peter Gabriel: voz e flauta. O tema do disco e as letras foram açambarcadas por Gabriel, ao contrário do habitual trabalho de grupo, e assim os outros elementos compuseram a música, principalmente Banks e Rutherford, com contributos de Hackett, Gabriel e Collins. Assim, para ser mais homogéneo o conteúdo, Peter dedicou-se a escrever sozinho - com um hiato para escrever guiões para cinema, e outras fricções que quase acabaram com o grupo. A inspiração foi uma "jornada de peregrino", pelo mundo e pela mente, de um marginal rapaz imigrante nas ruas de Nova Iorque. Muitas outras influências foram aduzidas, mas não o que apresento aqui.
Já há décadas que conheço o disco e foi o culminar da aquisição dos anteriores desta formação. Uma coisa que estranhava era o alinhamento das canções (coisa que importava a adolescência em busca de ordem) que, contrariamente a anteriores discos, parecia forçadamente desequilibrado: quatro faces dividas em 6-5-6-6. Eu via uma desarmonia desnecessária, pois certas canções estavam em partes, e havia temas instrumentais incluídos em canções e temas menores autónomos: não teria sido difícil contar 24 peças, divididas 6 em 4 lados, e estaria "perfeito". Pois, eram esquisitices minhas ou do grupo... Mais recentemente reparei ou re-reparei que na capa não há referência a lados nem as canções estão numeradas.
Seria então de propósito que se fez 23 secções mas não numeradas?
O que se divide em 23 partes são as cartas dos arcanos maiores do Tarô. E não se enumeram de 1 a 23, mas de 0 a 22, sendo que o zero e o vinte e dois são a mesma carta. Tal como no disco, em que uma canção do fim (não a última) é uma reprise da inicial. Será que tinha uma ideia consistente sobre a influência directa do Tarot sobre o decorrer do disco? Pensei que sim e fui pesquisando. No fundo, a sequência dos arcanos maiores, começando e acabando na mesma figura de viajante vaga-mundo, é em si uma jornada de peregrino. Porquê então não ter nunca lido qualquer referência a isso? Seria segredo?
Durante as gravações, fizeram relatos sobre ruídos e tempestades estranhas, envolvendo o disco numa certa aura extra-sensorial. Também se vêem pistas do tarot no primeiro disco a solo de Steve Hackett (Voyage of the Acolyte), feito imediatamente depois, com todas as canções tituladas a partir das cartas. Porque não teriam essas cartas inspirado antes o álbum em questão?
Foi exactamente o que perguntei a Steve Hackett quando esteve em Lisboa em Novembro de 2024. Ele, sempre prestável e sorridente, disse que o autor das letras era o Peter, ele é que sabia... ah ah ah! Mas então, porque escolhera ele cartas de tarot como inspiração para os temas do seu próprio disco de estreia? Porque jogavam à bisca nos intervalos?
[Hackett, no seu disco, só escreveu três letras - e uma com Rutherford - o resto são instrumentais; Gabriel escrevera para dezoito faixas, mas o mote, camuflado, fora o mesmo, na minha opinião. Dois homens nascidos em exactos dias seguidos, conscientemente ou não, escreveram sobre o mesmo tema no espaço dum ano]
Pronto, não fiquei esclarecido, mas também não fiquei convencido de que andava enganado. Serão só coincidências? Pode ser, mas serão essas coincidências que irei explorar faixa a faixa.
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