Teoria a mais - Tempo a menos

Dos Genesis para o Mundo - 6

    A história aproxima-se do fim, com algum esmorecimento mas ainda com momentos brilhantes.


    O herói saiu de situações incríveis mas excitantes, mas ainda falta passar pelos desafios finais de auto-conhecimento.


Colony of Slippermen (a Estrela)


    Está canção longa teria tudo para dificultar a interpretação, porque tem várias secções e porque o teor da letra poria em causa a comparação com as cartas, até agora razoável. No entanto, primeiro que tudo, temos a estrela que é o cantor - e a banda - em todo o seu esplendor, na prestação vocal e sobretudo na actuação teatral que usará em palco: adereços, entrada impactante, máscara bizarra. Mas só isso não justifiria ligar carta tão positiva ao tom incómodo e mórbido de todo o texto. A não ser que a carta venha invertida: é uma forma de ler no Tarot, quando as qualidades mudam. Na colónia de "desgraçados", e nos posteriores acontecimentos perturbantes, justifica-se a leitura invertida da Estrela. Desânimo, negativismo, alienação, impotência, mas também a responsabilidade de superar obstáculos. É um ritual de purificação e de reencontro com o ser, mesmo com um sentimento de castração momentâneo, pois, apesar de tudo há a estrela que guia. É deixar fluir até à resolução da trama. Ou do sonho.


Ravine (a Lua)


    Outro instrumental, abissal, quase intangível. A lua mostra o lado escuro, o desconhecido que se opõe às certezas. Para superar as dúvidas, o herói tem que seguir com luz interior.


The lights dies down on Broadway (o Louco)


    Esta canção é uma reprise do tema inicial (o título e o refrão remetem para primeira canção, enquanto o verso repete a melodia de Lamia), tal como a carta do Louco volta a aparecer. Não aparece como a última carta (mas há baralhos de Tarot em que, efectivamente, não é a última), mas dando a indicação do regresso ao princípio do protagonista. Só que ele ainda tem coisas a recuperar antes de voltar a casa. Nada ficou igual (e aqui é mesmo desigual porque a letra é de Tony e Mike, a pedido de Peter, sem tempo para a escrever).


Riding the scree (o Sol)


    A letra é mínima e a parte instrumental destaca-se. Contém um solo "solar" de teclas e tudo é luminoso, cheio de vitalidade e de recuperação da energia e motivação. O Sol está lá mesmo quando as luzes se apagam, ou ressurge depois de se terem apagado.


In the rapids (o Julgamento)


    Tal como sugere a suave canção, tudo se encaminha, lentamente, para o juízo final, rapidamente. Afinal, quem Rael procurava no seu fugidio irmão John, era ele mesmo. A verdade está à sua frente e dentro de si. O seu ser antigo morreu, mas continua a ser ele. É uma ressurreição.


it (o Mundo)


    "Aquilo" que o espera é o Mundo. É a vida em todas as suas possibilidades e oportunidades. O aqui e o agora. Se saiu de algo que o oprimia, agora goza a liberdade de estar bem consigo e não se obrigar a escolher nada de antemão. É a coroa de glória de um trabalho concluído. A jornada completa. Não é uma fase mas o Fim e o Princípio. Sempre esteve cá e é pleno. E somos nós e os outros. Afinal "isto" é só música rock, [de choque e pose,] e pode gostar-se "disso", simplesmente.


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[Concluindo: entre as várias camadas de significados e significantes, não há somente alguns elementos que se podem reconhecer como um adeus de Peter Gabriel dos Genesis. É toda a história, e cada letra escrita por si, que descreve um percurso - "jornada do louco" - e que culminou nessa decisão:  é a concepção duma longa carta de despedida ao seu grupo.]

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