Teoria a mais - Tempo a menos

Arre ao Pote e o caldeirão da inspiração

    Este não era o tema pensado para abrir o rol de "teorias", mas como nesta época passam muitos filmes da série, lembrei-me que tinha algumas coisas alinhadas, e, ao repensar nisso, ficou fresco para sair. E sempre é matéria que é, mal ou bem, pouco ou muito, do conhecimento geral actual.


    Independentemente da série Harry Potter me dizer alguma coisa, ou merecer atenção (nunca li, mas já vi muitos bocados dos filmes), foi atingindo uma importância que não se pode negar.


    Vou recorrer a memória própria de quando apareceu e de vários elementos à volta que me fizeram ligar pontos. Se as ligações têm cabimento, só a autora, J. K. Rowling, confessará, e os leitores avaliarão.


    Tem isto a ver com a dimensão do que é uma inspiração, referência, ou do que é um plágio - de que já houve acusações - e da valorização e expansão duma obra de língua inglesa em comparação com o pouco ou nenhum valor que se dá ao que se faz em Portugal. Isto porque a autora vivia no Porto quando diz que começou a obra, e algumas coisas disse que retirou da experiência. Não em relação à livraria de escada para turista que se aproveitou para auto-promoção, mas, por exemplo, que eu tenha lido, em relação aos fatos académicos de capa ao vento, que vestiram os jovens estudantes dos seus livros.


    Não conheço nem me move nada em favor ou desfavor de quem vou referir, mas procuro revelar aquilo que será de justiça e também dever de decência de quem recebe dos outros. Nomeadamente, é um padrão histórico das relações inglesas e portuguesas, e do conhecimento da história de cada país, pois enquanto os ingleses sabem e souberam aproveitar as dávidas, mas também pilharam e receberam o que era alheio, os portugueses desvalorizam-se, desleixam-se, e bajulam agradecidos a quem lhes deve realmente.


    Vejamos o que poderão ser meras coincidências ou antes inspirações esquecidas:


...


1. Lembro-me de quando saiu o primeiro livro (1997), este foi logo muito publicitado em todo o lado, até com o realce da autora ter morado cá. A história do rapazinho que ia estudar numa escola de feiticeiros parecia algo já visto recentemente... Havia pouco (1995) saíra em Portugal o livro "Adozinda", da revelação Sofia Ester, sobre uma estudante bruxinha moderna que voava numa vassoura sobre o Tejo.


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O livro teve algum destaque e chegou a ganhar prémio, mas rapidamente foi esquecido quando surgiu o bruxinho inglês. A série portuguesa continuou, com uma "convenção de magos" e uma "faculdade da magia", mas sem o destaque anterior. A autora de Potter, segundo a bibliografia, já deixara o nosso país em 1993, mas ficou-me sempre esta memória. Houve alguma influência comum? Influência mútua ou imaginação minha? Pelo menos, fica a sensação de que a imaginação portuguesa, mesmo que com menos meios de impacte, fica relegada para um canto e recebe melhor tudo o que, sobretudo de Inglaterra, vem já bem embrulhado


2. Da década de 80 vinha uma obra colectiva em banda desenhada, um "cadáver esquisito" surgido do programa de Júlio Isidro "Arroz Doce"(1985). Chamava-se "As aventuras de Godofredo Leite Fresco" um rapaz inventor e mágico, cujas pranchas foram sequentemente publicadas no jornal "Pau de Canela", surgido a partir do programa televisivo ... Lembro-me de ver o programa e de comprar o cómico jornal, mas a história aos quadradinhos, feita por vários desenhadores, foi ficando mesmo esquisita e desigual. Acho que nunca foi publicado em livro mas seria um objecto interessante que se perdeu nos tempos. A informação na "rede" não é muito completa e é uma pena. A primeira página foi de Carlos Barradas (fazia muita coisa na RTP), e nem sei se a ideia foi dele, ou de Júlio Isidro, ou de vários que faziam o programa. O que sei é que era um personagem patusco, de óculos redondos e roupa larga, que se movimentava por mundos mágicos e entre figuras bizarras, mas sempre com estilos diferentes consoante o autor. Durante a segunda metade dos 80 era uma referência de trabalho de BD e de televisão. 


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    Consigo ver algumas semelhanças com a série Potter, mas pode ser só uma coincidência. O que não é coincidência é o desinteresse no nosso país de se preservar a memória.


    Curiosamente, com quem se parece mais Godofredo é com Wally, criado um ano depois, com seus óculos, madeixas sobre os olhos, chapelito no alto da cabeça e camisola às riscas, e sugerido por algum desconhecido ao autor de "Onde está o Wally?"


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3. O que não sofre dúvidas é a origem de certos elementos vindos duma outra obra... Esta é ainda anterior (1982) e mesmo inglesa, em livros e série de televisão que passou cá. Falo de "Adrian Mole" na crise da adolescência, de Sue Townsend, rapaz com os seus óculos redondos, cabelo escuro, risco ao lado e farda de colégio inglês.


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Um Harry Potter auto-consciente e existencialista, apaixonado por Pandora (nome da mitologia grega, a que o nome, da amiga de Harry, Hermione não é alheio). Os próprios nomes dos protagonistas soam parecido, com sílabas de vogais iguais "A-i" "o-e". Ou será dos meus ouvidos? Outra "referência", que não sei se chamou a atenção de alguém, mas a mim foi mesmo só hoje, é a do título inicial de Mole "diário secreto com 13 anos e 3/4", e a famosa plataforma 9 e 3/4 que conduz Potter à escola de Hogwarts. 


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    Como disse, quero escrever sem preocupação, mas sempre há alguma para que seja credível. São suposições, que me acompanham há algum tempo, mas com certa cautela por não conhecer as obras a fundo. Valeria a pena? Sim, serão divertidas, e por ventura se descobririam mais semelhanças. Mas isso existe em muitos casos. O caso presente é mais para denunciar a fama desmesurada de umas histórias em detrimento de outras que ficam na obscuridade e que, afinal, até são mais originais.


    O pote é sempre tão "british", cheio de referências a lendas e literaturas lá do sítio, quando os "vales de morte" até passam por aqui, mesmo se silenciados.

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